A radiografia fora do colete na escoliose ajuda a responder uma das perguntas mais importantes do tratamento conservador: o que permanecerá quando a ação mecânica da órtese deixar de atuar?
Existe uma pergunta que praticamente todos os pais fazem em algum momento do tratamento:
“O que vai acontecer quando meu filho deixar de usar o colete?”
É uma pergunta simples, mas que revela uma preocupação extremamente importante.
Afinal, se durante meses — ou até anos — um adolescente utilizou um colete corretivo para escoliose , é natural imaginar que a verdadeira resposta sobre o tratamento aparecerá justamente quando ele for retirado.
Curiosamente, essa pergunta ainda costuma receber respostas muito superficiais.
Muitas vezes, toda a atenção fica voltada para a radiografia realizada com o colete.
Quando essa imagem mostra uma grande redução do ângulo de Cobb , surge a sensação de que o tratamento já está resolvido.
Mas será que essa é realmente a pergunta mais importante?
Ao longo de quase três décadas acompanhando pessoas com escoliose, aprendi que não.
Na verdade, essa pode ser apenas o começo da conversa.
O que normalmente chama mais atenção
É muito compreensível que famílias e até profissionais fiquem impressionados quando observam uma radiografia realizada com o colete.
Em muitos casos, a curva parece reduzir de maneira significativa.
Essa imagem transmite segurança porque mostra que o colete está conseguindo exercer uma ação mecânica importante sobre a coluna.
E isso realmente tem valor.
A radiografia realizada com o colete faz parte do acompanhamento do tratamento. Ela permite verificar se aquela órtese está produzindo a correção esperada e se ajustes podem ser necessários.
Portanto, ela não deve ser desprezada.
O problema começa quando essa imagem passa a ser interpretada como sinônimo do resultado final do tratamento.
São coisas diferentes.
Uma demonstra o efeito corretivo obtido enquanto o colete está sendo utilizado.
A outra procura responder uma pergunta muito mais importante:
O que permanecerá quando esse colete deixar de atuar?
Essa diferença pode parecer pequena, mas muda completamente a forma de interpretar o tratamento da escoliose.
Uma grande redução do ângulo de Cobb na radiografia com o colete demonstra uma resposta mecânica à órtese. Isso não significa, automaticamente, que a mesma correção será mantida quando o paciente estiver sem o colete.
O que aprendi acompanhando pacientes durante tantos anos
Existe uma frase que costumo repetir durante as consultas:
Uma boa correção não pode ser avaliada apenas enquanto o colete está sendo usado.
O colete tem uma função muito clara: aplicar forças corretivas sobre o tronco.
Enquanto essas forças estão presentes, esperamos observar uma resposta mecânica da coluna.
Mas o verdadeiro desafio do tratamento conservador sempre me pareceu outro.
O que realmente queremos construir?
Uma coluna que permanece corrigida apenas enquanto existe uma força externa atuando?
Ou uma melhora que possa ser sustentada ao longo do tempo?
Foi exatamente essa inquietação que me acompanhou durante muitos anos.
Essa pergunta influenciou minha maneira de estudar, de viajar, de buscar diferentes escolas de tratamento e de compreender cada vez melhor a biomecânica da escoliose.
Hoje, olhando para trás, percebo que ela mudou completamente a minha forma de interpretar os resultados.
Passei a observar não apenas o que acontecia durante o uso do colete.
Passei a observar, principalmente, o que acontecia depois.
E foi justamente essa mudança de olhar que transformou minha prática clínica.

Radiografia com colete, fora do colete e ao final do tratamento
Antes de interpretar os resultados científicos, é importante compreender que nem toda radiografia realizada sem o colete corresponde ao momento em que o tratamento já terminou.
Durante o acompanhamento podem existir diferentes momentos radiográficos:
- Radiografia inicial: registra a condição da curva antes do início do tratamento com a órtese.
- Radiografia com o colete: avalia a correção mecânica produzida enquanto a órtese está atuando.
- Primeira radiografia fora do colete: é realizada durante o tratamento, sem a ação imediata da órtese, seguindo o protocolo definido pela equipe responsável.
- Radiografia ao final do tratamento: é realizada depois que o crescimento e o processo de retirada do colete chegam ao momento estabelecido para a avaliação final.
Portanto, falar em “radiografia fora do colete” não significa, necessariamente, falar apenas do período posterior ao desmame definitivo.
Essa distinção é fundamental para compreender corretamente o estudo que analisaremos a seguir.
O que a literatura científica acrescentou a esse raciocínio
Durante muitos anos, essa percepção fazia parte da minha prática clínica.
Eu observava que uma boa radiografia obtida enquanto o paciente ainda utilizava o colete era importante, mas não respondia, sozinha, à pergunta que realmente interessava.
O que permaneceria quando aquela força corretiva deixasse de atuar?
Mais tarde, a literatura científica passou a investigar exatamente essa questão.
Em 2022, Negrini e colaboradores publicaram no European Spine Journal um estudo com 131 adolescentes com escoliose idiopática tratados com colete.
Os pesquisadores compararam diferentes momentos da avaliação radiográfica e procuraram responder uma pergunta muito prática:
Qual radiografia consegue prever melhor o resultado final do tratamento?
A radiografia realizada com o colete, mostrando a correção mecânica imediata?
Ou a primeira radiografia realizada fora do colete durante o tratamento?
A conclusão foi extremamente interessante.
A primeira radiografia realizada fora do colete apresentou uma correlação de 0,80 com o resultado ao final do tratamento.
Na radiografia com o colete, essa correlação foi de 0,68. Na radiografia inicial, foi de 0,59.
Em outras palavras, naquele grupo estudado, a primeira radiografia fora do colete se aproximou mais do resultado final do que a imagem produzida enquanto a órtese estava aplicando sua correção.
Isso não diminui a importância da radiografia com o colete.
Pelo contrário.
Ela continua sendo uma ferramenta fundamental para avaliar a correção mecânica produzida pela órtese, orientar ajustes e acompanhar a evolução do tratamento.
O que o estudo nos ajuda a compreender é outra coisa.
Uma boa correção obtida durante o uso do colete não deve ser interpretada automaticamente como sinônimo do resultado que será mantido ao longo do tempo.
A radiografia fora do colete na escoliose e o resultado final
A pesquisa de Negrini e colaboradores utilizou um protocolo específico.
A primeira radiografia fora do colete foi realizada depois de quatro a seis meses de uso da órtese, ao final do período diário prescrito sem o colete.
Esse intervalo sem a órtese variava entre zero e seis horas, de acordo com a prescrição de cada paciente.
Já a radiografia do final do tratamento foi realizada ao término do crescimento, depois de 48 horas sem o colete.
Essa informação é importante porque evita uma interpretação equivocada.
O estudo não comparou apenas uma radiografia com o colete com outra feita depois de seu abandono definitivo.
Ele investigou se uma avaliação realizada sem a ação imediata da órtese, ainda durante o acompanhamento, poderia oferecer informações mais próximas do resultado final.
E, naquele estudo, ofereceu.
Por isso, em vez de perguntarmos somente:
“Quanto corrigiu enquanto estava usando o colete?”
passamos também a perguntar:
“Quanto dessa melhora o paciente consegue demonstrar sem a ação mecânica imediata do colete?”
Essa mudança de perspectiva parece sutil, mas transforma a forma de interpretar os resultados do tratamento conservador da escoliose.
O que isso muda na prática clínica
Quando compreendemos essa diferença, passamos a olhar para o tratamento de maneira muito mais ampla.
O objetivo deixa de ser apenas produzir uma imagem impressionante na radiografia realizada com o colete.
O verdadeiro objetivo passa a ser construir uma melhora que tenha condições de permanecer ao longo do tempo.
Essa forma de pensar também está alinhada às diretrizes internacionais da SOSORT.
As diretrizes apresentam objetivos que vão além de um único número: estética, qualidade de vida, funcionalidade, dor, bem-estar psicológico, função respiratória, prevenção da progressão e redução da necessidade de tratamentos futuros.
Isso não significa que o ângulo de Cobb deixe de ser importante.
Significa que ele precisa ser interpretado dentro de um conjunto mais amplo de informações.
É exatamente por isso que, na minha prática clínica, nunca interpreto uma radiografia isoladamente.
Ela sempre faz parte de uma avaliação completa da escoliose .
Observo a postura, a rotação do tronco, o equilíbrio entre os planos da deformidade, a função respiratória, a adaptação às atividades do dia a dia e, naturalmente, a evolução radiográfica.
Quando todos esses elementos começam a conversar entre si, deixamos de enxergar apenas uma imagem.
Passamos a compreender melhor a pessoa que está à nossa frente.
O que realmente queremos construir
O tratamento conservador da escoliose não deve ser interpretado como uma sequência de imagens isoladas.
Ele é um processo.
O colete precisa produzir uma correção mecânica adequada.
O paciente precisa utilizá-lo de acordo com a prescrição e ser acompanhado ao longo do crescimento.
A fisioterapia específica para escoliose deve ajudá-lo a desenvolver consciência, autocorreção tridimensional, controle neuromotor e integração da postura corrigida às atividades da vida diária.
É essa integração que nos permite pensar não somente no efeito produzido enquanto o colete está no corpo, mas também no que poderá ser sustentado quando ele não estiver.
Por isso, a pergunta “o que acontece depois que o colete sai?” não representa apenas o medo do final do tratamento.
Ela nos obriga a avaliar, desde o início, qual resultado estamos realmente tentando construir.
E acredito que essa é uma das maiores contribuições da literatura científica para quem trabalha seriamente com escoliose:
ajudar-nos a fazer perguntas melhores, em vez de procurar apenas respostas rápidas.
